Compadece todo mundo à simplicidade de Ariano Suassuna

| A matéria seria publicada originalmente em 2005 |

Ariano Suassuna_1182376650_frente_municipalRegado a água de côco e muito bom humor, aos 78 anos com voz fraca, rouca e baixa, um dos mestres da literatura brasileira, Ariano Suassuna, encantou o público que esteve presente ao Salão dos Espelhos, localizado no Clube do Comércio, no centro de Porto Alegre, durante a 51ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre, em outubro de 2005. Simpático e brincalhão, Suassuna, que ocupa a cadeira 32 na Academia Brasileira de Letras, passeou pela Feira e autografou seus livros.
O luxuoso salão, repleto de espelhos e rebuscados móveis, ficou completamente ofuscado diante do jeito simples de Suassuna falar, aquele modo encantador e nordestino de ser. O autor d’O auto da Compadecida, entre outros, recebeu o público com o bom humor que lhe é peculiar e falou do gosto pela literatura, pela arte, sobre as técnicas e formas de contar histórias e da velhice.
Literatura
Ao falar de literauta, Suassuna lembra dos Sertões de Euclides da Cunha, que retrata a saga dos sertanejos na, então, recente república brasileira. Entretanto, ressalta que o texto serve como exemplo de todos os brasileiros. “O homem é o mesmo em todo o lugar, pois independente da classe social ou cultural a que pertence, seus problemas são e serão sempre os mesmos”, avalia o escritor. “Os nossos problemas são: a solidão, o ciúme, o sofrimento e a morte”, complementa.

Suassuna considera Euclides da Cunha o patrono da literatura nacional. Pouco afeito a vaidades, ruboriza-se ao lembrar do elogio que recebeu do notável Carlos Drummond de Andrade. “É preciso merecer a graça da escrita, não é qualquer um que é do seu calibre”, relembra as palavras que ouviu de Drumond décadas atrás.

Arte
O escritor considera que a arte é uma forma precária, mas poderosa de lutar contra a morte. Suassuna parece não compreender a vaidade, seja ela qual for, física ou intelectual. A considera horrorosa e inútil. Argumenta que só depois de muito tempo a gente vai descobrir se algo ficou. “A vaidade é um mal que assola boa parte dos escritores. Ô raça desagradável”, provoca ironicamente.

Escrita
O escritor explicou algumas de suas técnicas de escrita, sobretudo como criar personagens engraçados. “Quer tornar uma coisa engraçada? Transforme tudo que é figurado em literal”, ensina. A aula, porém, não acabou por aí e ele trouxe outras dicas importantes para quem quer se aventurar na literatura. “Há três formas de escrever humor: uma delas é a repetição, onde o sujeito aparece, some e depois reaparece; há, também, a inversão, que é o caso da pessoa que tenta enganar alguém, mas no final o feitiço vira contra o feiticeiro; e, por último, a interferência, quando dois personagens se encontram com histórias semelhantes que se confundem, sem uma ter relação com a outra”, explica.

Velhice
O escritor considera uma façanha chegar aos 78 anos com bom humor e diz que odeia quando dizem que ele está na “terceira idade”. Para ele, o homem possui cinco idades: infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice. “Velho, maduro e podre é o que significa as três fases da teceira idade”, descontrai Suassuna.

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Obrigado Suassuna!

Há quase nove anos estive frente a frente com Suassuna. Diante de sua já imensa fragilidade física e de sua extraordinária força intelectual. Aprendi com ele que vaidade é a coisa mais inútil que existe. Por força dos inexplicáveis contratempos tecnológicos, minha pequena matéria que escrevi sobre ele não foi publicada. Na época o e-mail se perdeu e quando foi encontrado já era tarde demais, levando em conta a perenidade do valor notícia. Quase dez anos depois, a velha reportagem ganha fôlego jornalístico da pior maneira possível (ou melhor, afinal nunca saberemos) e, torna-se, de novo, relevante de ser publicada. Suassuna, meu querido, muito obrigado!

 

“Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.” – O Auto da Compadecida

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