Da rua, o andarilho viu uma luz forte que fugiu pela fresta entre a parede e o telhado, subiu em direção ao céu e se perdeu no infinito das estrelas. De súbito pensou que estava embriagado pelo cansaço e que aquilo não passara de uma visão. Desde a infância tinha o estranho poder de enxergar por entre as coisas. Fosse uma parede de pedras ou barro, ou ainda, a pele humana, que nos sonega a visão dos órgãos, ele podia enxergar. Bastava que alguém próximo dele passasse por algo estranho ou desconhecido que seus poderes vinham à tona. Amarrou o burro na estaca do portão. Bateu palmas. Era noite. O casal, que neste momento fazia coisas de casais, interromperam o ato e foram ver do que se tratava. Uma mulher de corpo esguio e olhar doce puxou a porta e pela fresta perguntou “O que você quer?”, “Apenas conversar”, respondeu o andarilho. Nesse instante o marido saiu à rua e indagou. “Pois diga, e diga rápido, porque isso não são horas de gritar à porta dos outros”. “Peço desculpas e que me ouçam com atenção. Quando eu passava aqui em frente, uma luz forte saiu de sua casa. É certo que não perceberam, pois estavam ocupados demais para atentarem a esses detalhes. Vos digo. Terão um filho. Essa criança trará a paz e a guerra. Ele crescerá e será perseguido, morto, crucificado. Ele traz uma mensagem de paz, mas será incompreendido. A bondade não cabe em palavras, senão em gestos, e ainda assim é insuficiente. Com a mesma impaciência que vocês me julgaram ele será julgado. Antes da pari-lo, vocês terão que fugir dos romanos, mas será em vão, porque trinta e três anos depois ele será capturado. O destino eu já disse, será a cruz. Ele é o enviado de Deus que veio para nos trazer a paz, mas em nome dele, séculos mais tarde, milhares de pessoas morrerão. Mas disso ele não tem culpa. São os homens, não Deus que faz a guerra. Ainda que o futuro seja penoso, criem-o com todo o amor e carinho que puderem. Há pessoas que o entenderão. Não há justificativas para a intolerância, mesmo quando a noite bate à porta um andarilho. Agora, voltem para dentro, descansem e esqueçam o que eu falei. Ah, e comprem um burro, pois quando ela não mais puder caminhar, o animal fará falta”, disse, “Mas não temos dinheiro para isso”, “Quando chegar a hora terão”, respondeu o velho. O casal foi para dentro. O andarilho foi embora, quase sem deixar marcas. Ao amanhecer, o homem abriu a porta e na estaca onde o portão habita, o burro permanecia praticamente imóvel onde foi amarrado na noite anterior. O andarilho deixou para trás o único companheiro que tinha. Deixou também a sabedoria de quem não sabe bem por que, enxerga o que enxerga.

Arnaldo Antunes ensina a sina de ensinar
Arnaldo Antunes dispensa comentários. Arnaldo Antunes dispensa elogios. Arnaldo Antunes só não dispensa, nem desperdiça, palavras. Recentemente estive com o cara, frente a frente, e, às vezes, dou-me conta de como é incrível a vida. Há pouco tempo atrás tocava violão e pensava ser impossível estar perto da voz mais grave do Titãs. Enquanto penso, a vida segue, e “o pulso ainda pulsa”.
Arnaldo dizia que as palavras são uma espécie de porto seguro que lhe permitem se aventurar por onde quer que queira. Aliás, falando em navegar, ele se diz entusiasta daquilo que chama de “revolução digital”. “A internet é a linguagem da colagem. As fronteiras da linguagem estão cada vez mais diluídas e as novas tecnologias estão reconectando tudo isso. Os meios digitais estão resgatando algo que é primitivo. Assim rompe-se a ideia de que a literatura é para ler, a música para ouvir, a foto para ver. Sou a favor das redes sociais como conceito, mas não sou frequentador assíduo. Acho bárbaro”, avalia.
Aprender a prender a aprender
Viciado e aficionado por linguagem, Arnaldo começou a escrever cedo. Em 1978, começou a faculdade de Letras, em 1982 entrou para os Titãs, em 1992 saiu. De lá para cá segue, por razões óbvias (basta ver sua trajetória), sua carreira solo. O cara conta que começou a escrever quando aprendeu a tocar violão, aos 15 anos. Ele fala das diferenças em fazer música e literatura. “A música tem um aspecto coletivo, porque se faz junto e se toca em locais públicos. A literatura é mais solitária, seja na produção, seja na recepção”, explica.
Ver o cara, que é fera, falar que não acredita em seu primeiro texto me faz pensar que todos escritores, novos ou experientes, passam pela mesma angústia da reescrita e que Jack Kerouac é uma verdadeira exceção. “A gente cria por subtração, retirando os excessos. Escrevo muitas coisas e rascunho tudo, rabisco. Eu não tenho tudo na cabeça, por isso preciso dessa relação externa, no rascunho”.
Sedução
Recentemente vi o Bauman falar sobre fetichismo tecnológico. Arnaldo talvez nem sequer tenha lido a respeito, mas falou sobre a mesma coisa. Para o cantor e poeta, a internet é muito sedutora, mas nem por isso deixa de ser superficial. “É muito sedutor ficar só na superfície. Mais do que nunca as pessoas tem que priorizar informações mais aprofundadas. Deve ser por isso o termo navegar. A gente precisa compensar isso com a leitura de um livro, ver uma paisagem. Precisamos desses momentos de contemplação. É isso, sair da correria e contemplar”.
Por isso meus caros leitores, esqueçam esse blog. Desliguem a internet e vão ser seus filhos crescerem, os cachorros brincarem e o sol se pôr. Pois contemplar é tão necessário quanto viver.
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Drops de Arnaldo Antunes
As Árvores
As árvores são fáceis de achar
Ficam plantadas no chão
Mamam do sol pelas folhas
E pela terra
Também bebem água
Cantam no vento
E recebem a chuva de galhos abertos
Há as que dão frutas
E as que dão frutos
As de copa larga
E as que habitam esquilos
As que chovem depois da chuva
As cabeludas, as mais jovens mudas
As árvores ficam paradas
Uma a uma enfileiradas
Na alameda
Crescem pra cima como as pessoas
Mas nunca se deitam
O céu aceitam
Crescem como as pessoas
Mas não são soltas nos passos
São maiores, mas
Ocupam menos espaço
Árvore da vida
Árvore querida
Perdão pelo coração
Que eu desenhei em você
Com o nome do meu amor.
Pensamento

Margarida
Yo he vivido cosas que me hacen un sujecto mejor. He conocido, también, personas muy distintas, todas con algo de belleza que me encanta. Ayer, porque para mi las cosas buenas que pasaron son siempre ayer, conocí Margarida, una peruana que hace artesanías. Ella tiene tres hijos, dos en la facultad y una nena, como ella mismo me lo dijo.
Margarida me cuenta sobre su trabajo, después que yo me quedé encantado mirando todo. Ella dejó su país, Peru, hace 12 años. Queria vivir mejor con el dinero de su trabajo, las artesanías. A mi me llama la atención los motivos cristianos con personajes indígenas. Hay desde los presépios* hasta la Santa Cena. Pero no hay nada más original que el ajedrez con gauchos y porteños, jesuítas y tribos indígenas ó exploradores e Incas
Pregunto al fin, sobre el calendário Inca, acerca del fin del mundo. Con la simplicidad de quien conoce, no solo los Incas, pero la vida, ella dijo que eso es una invención, cosa de una persona, no de los Incas. Pero cree que el mundo se va a terminar y los dioses nada tienen que ver con eso. “Somos nosotros que acabamos con el mundo. Son los hombres con sus coches, sus fábricas y todo más. No es bueno poner la culpa en los dioses”, concluye Margarida. Me callo, todo fue dicho.
* Não encontrei equivalente em espanhol.
*** Texto revisado e corrigido pelo grande amigo André (Gaucho) Ávila.







