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Arnaldo Antunes ensina a sina de ensinar

In Novas histórias on 2 novembro, 11 by Ricardo Machado Etiquetado: , , , , , , , , , , ,

Arnaldo Antunes participou como palestrante da Feira do Livro de Novo Hamburgo.

Arnaldo Antunes participou como palestrante da Feira do Livro de Novo Hamburgo.

Arnaldo Antunes dispensa comentários. Arnaldo Antunes dispensa elogios. Arnaldo Antunes só não dispensa, nem desperdiça, palavras. Recentemente estive com o cara, frente a frente, e, às vezes, dou-me conta de como é incrível a vida. Há pouco tempo atrás tocava violão e pensava ser impossível estar perto da voz mais grave do Titãs. Enquanto penso, a vida segue, e “o pulso ainda pulsa”.

Arnaldo dizia que as palavras são uma espécie de porto seguro que lhe permitem se aventurar por onde quer que queira. Aliás, falando em navegar, ele se diz entusiasta daquilo que chama de “revolução digital”. “A internet é a linguagem da colagem. As fronteiras da linguagem estão cada vez mais diluídas e as novas tecnologias estão reconectando tudo isso. Os meios digitais estão resgatando algo que é primitivo. Assim rompe-se a ideia de que a literatura é para ler, a música para ouvir, a foto para ver. Sou a favor das redes sociais como conceito, mas não sou frequentador assíduo. Acho bárbaro”, avalia.

Aprender a prender a aprender

Viciado e aficionado por linguagem, Arnaldo começou a escrever cedo. Em 1978, começou a faculdade de Letras, em 1982 entrou para os Titãs, em 1992 saiu. De lá para cá segue, por razões óbvias (basta ver sua trajetória), sua carreira solo. O cara conta que começou a escrever quando aprendeu a tocar violão, aos 15 anos. Ele fala das diferenças em fazer música e literatura. “A música tem um aspecto coletivo, porque se faz junto e se toca em locais públicos. A literatura é mais solitária, seja na produção, seja na recepção”, explica.

Ver o cara, que é fera, falar que não acredita em seu primeiro texto me faz pensar que todos escritores, novos ou experientes, passam pela mesma angústia da reescrita e que Jack Kerouac é uma verdadeira exceção. “A gente cria por subtração, retirando os excessos. Escrevo muitas coisas e rascunho tudo, rabisco. Eu não tenho tudo na cabeça, por isso preciso dessa relação externa, no rascunho”.

Sedução

Recentemente vi o Bauman falar sobre fetichismo tecnológico. Arnaldo talvez nem sequer tenha lido a respeito, mas falou sobre a mesma coisa. Para o cantor e poeta, a internet é muito sedutora, mas nem por isso deixa de ser superficial. “É muito sedutor ficar só na superfície. Mais do que nunca as pessoas tem que priorizar informações mais aprofundadas. Deve ser por isso o termo navegar. A gente precisa compensar isso com a leitura de um livro, ver uma paisagem. Precisamos desses momentos de contemplação. É isso, sair da correria e contemplar”.

Por isso meus caros leitores, esqueçam esse blog. Desliguem a internet e vão ser seus filhos crescerem, os cachorros brincarem e o sol se pôr. Pois contemplar é tão necessário quanto viver.

***

Drops de Arnaldo Antunes

As Árvores

As árvores são fáceis de achar
Ficam plantadas no chão
Mamam do sol pelas folhas
E pela terra
Também bebem água
Cantam no vento
E recebem a chuva de galhos abertos
Há as que dão frutas
E as que dão frutos
As de copa larga
E as que habitam esquilos
As que chovem depois da chuva
As cabeludas, as mais jovens mudas
As árvores ficam paradas
Uma a uma enfileiradas
Na alameda
Crescem pra cima como as pessoas
Mas nunca se deitam
O céu aceitam
Crescem como as pessoas
Mas não são soltas nos passos
São maiores, mas
Ocupam menos espaço
Árvore da vida
Árvore querida
Perdão pelo coração
Que eu desenhei em você
Com o nome do meu amor.

Pensamento

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